No post passado, falei que as mulheres são provedoras da vida. E hoje é aniversário daquela que me proveu a vida e o caráter. Da juventude roubada, das lágrimas nas apresentações de ballet, das aulas na rede pública para fazer uma festa de quinze anos, das noites mal dormidas pela agonia de bronquites que insistiam em não passar, por cada doce “não”, por cada esperado “sim”, mamis sempre foi uma batalhadora.
Dizem que somos muito parecidas. Fisicamente e psicologicamente. Fisicamente, concordo. Parece até que sou fruto de uma partenogênese. Psicologicamente? Duvido. O gênio pode até ser parecido, mas fico a anos luz quando o quesito é lutar. Rendo-me facilmente. Choro por nada. Minha mãe não. Ela vai e faz!
Tanto faz que agora enfrenta bravamente um câncer de mama que pegou todos de surpresa. Uma surpresa nada agradável, mas que tem se mostrado verdadeira discente na arte da vida e das escolhas.
Aniversários nos lembram que a vida é cíclica e que a mudança é a única coisa estável neste incompreensível Universo. Aniversários nos lembram que dores e amores são muito próximos. E por isso, transcrevo aqui um pedaço de um email que mandei pra ela...
Nunca serei uma grande bailarina e não deixarei um legado grandioso para o mundo (como fizeram os grandes cientistas, artistas e espiritualistas). Mas se há alguma coisa que eu possa fazer, isso é colocar em palavras minha pequena compreensão do mundo. Talvez isso amenize o sofrimento de poucos, mas ainda assim já é alguma coisa.
Somente diante da dor, é que tomamos consciência de nossa pequenez. O Universo é tão infinitamente imenso que nossa capacidade limitada não nos permite compreendê-lo. A única coisa que entendi é que ele funciona em ciclos contínuos. É como um jardim, no qual plantamos uma semente e dali nascem belas flores. As flores, tão logo cumprem seus propósitos (de enfeitar o olhar, atrair insetos ou dar frutos), murcham e morrem. Mas elas morrem para virar adubo e assim dar continuidade a este ciclo maluco e pulsante que é vida. A morte das flores dá vida a algo novo, algo fresco, algo lindo: um novo jardim. É uma inspiração, que tão logo cessa para morrer numa expiração e novamente se tornar inspiração. Assim é o curso natural das coisas. Um contínuo morrer e nascer daquilo que nos cerca.
O problema é que o ser humano é muito auto-centrado. Somos tão imensamente cartesianos, lógicos e racionais que perdemos a capacidade de compreender este ciclo natural das coisas. È sempre o "eu faço", "eu aponto", "eu sou foda", "eu decido minha vida", "meus valores". Tenho certeza de que nem as flores e nem a Marie têm tamanha convicção de posse e dominação. As flores e a Marie simplesmente fluem junto com o curso natural de suas vidas. E diante de tanta confiança em si mesmo, é que alguns "acidentes de percurso" acontecem. Ficamos doentes, damos a luz a filhos especiais, perdemos entes queridos antecipadamente, somos demitidos e um sem fim de acontecimentos corriqueiros todos os dias na vida de todo mundo.
O que precisamos aprender é não nos desesperar diante de tamanha ciclicidade que, às vezes, chega a ser cruel demais para nossa pequenez. O que precisamos aprender é que encarando fatalidades, nascerá dali uma nova vida, uma nova perspectiva, uma nova realidade muito melhor que a primeira, mas que depende exclusivamente do nosso "sim". O "sim, eu encaro". É o não fugir, mas permanecer firme bem no olho do furacão.
Isso não significa, é claro, que não cairemos em prantos. Como eu disse, somos frágeis e nos é permitido o desespero, a carência e a perturbação nos momentos mais difíceis. Mas é nessa hora que estaremos todos aqui pra te apoiar!
O amor que sinto por vc. é algo que não cabe dentro de mim! È tanto que, se eu pudesse, passaria por tudo isso em seu lugar. Só não repetirei essas palavras porque sei que tal coisa aumentaria sua dor, afinal é minha mãe.
Meu amor não cabe em palavras. Meu amor não cabe em blogs. Nem no meu coração, cabe meu amor. Por isso, mamãe, fica aqui o meu “muito obrigado” com a certeza de que sim, daremos conta. E como sempre digo, um dia, quando tivermos superado, olharemos para trás e não restará nada além de uma bela gargalhada.
Amo você!