January 12, 2010

Como antigamente



– Cortejar uma mulher é como o tango: absurdo, pura frescura. Mas é você o homem, e é você quem deve tomar a iniciativa.
– Eu? A iniciativa?
– Está pensando o quê? Poder mijar em pé tem que ter algum preço.
– Mas se Bea deu a entender que ela me procuraria.
– Como você entende pouco de mulheres, Daniel. Aposto que essa garota está agora em casa, olhando languidamente pela janela como a Dama das Camélias, esperando você para resgatá-la do idiota do senhor seu pai, para arrastá-la numa espiral incontrolável de luxúria e pecado.
– Você acha isso?
– Pura ciência.

Carlos Ruiz Zafón, em A Sombra do Vento


Adoramos nossa casa. Adoramos nosso trabalho. Adoramos nossa independência. Somos gratas por aquelas que queimaram seus sutiãs e encomendaram um mundo com diferenças mais ou menos amenas e direitos mais ou menos iguais. Porém, há certas coisas que ainda é bom que se mantenham como antigamente. É quando você se dá conta de que não precisa se preocupar com a logística “trânsito + horário”, não precisa escolher o lugar mais descolado da cidade e nem mesmo saber o resultado do último placar pra ter assunto. Ele simplesmente convida e marca um horário; ela aceita e sua única preocupação são as unhas, o vestido e a sandália. Sua única preocupação é ser mulher. É como dança de salão: ele conduz, mas é você quem brilha. Experimentem, meninas. É libertador!

December 28, 2009

Conversinha


– Sabe... É que você é tão independente e auto-suficiente que a impressão que tenho é de que eu poderia levar um pé-na-bunda a qualquer momento.

– Então, diante dessa possibilidade é melhor escolher alguém mais carente?

– Não diria mais carente. Porém, mais dependente. Aquela sensação de que a pessoa depende de você faz com que se sinta importante e indispensável.

– Engraçado isso! Pois penso absolutamente o contrário. Minha existência não pode ser o plano de felicidade de ninguém. Dispenso tal responsabilidade. Agora, imagine que tenho infinitas possibilidades. Posso escolher dentre fulano, beltrano e ciclano. Posso virar monge no Tibet ou sair numa viagem sem volta mundo afora. Posso virar bissexual ou adotar dez crianças carentes. E se mesmo diante de tantas possíveis escolhas, eu ainda disser “eu escolho estar com você”; ISSO é ser especial.


Post dedicado a todos os casais "pra sempre" que conheço, pois souberam fazer escolhas.

November 19, 2009

Meu mundo de tule


Estava no ônibus completamente absorvida pela leitura que carregava nas mãos e alheia aos risos, à música de mau gosto e aos giros da catraca. Foi quando aquela menininha embarcou; no ônibus e na minha lembrança. Era uma pequena bailarina, completamente trajada de cor-de-rosa e seu tutu de tule empinado. Olhos amendoados, grandes, a pele muito clara e um cabelo castanho lisinho todo preso em um coque esbelto e enfeitado com miçangas. Comportada ao lado da mãe, conversava como gente adulta sobre as ocorrências da escola e sobre a apresentação do final do ano. A essa hora, já pouco me importava o sentido das letras. Queria apenas ouvir aquela menininha e voltar a compartilhar seus sonhos. Era minha própria imagem de outrora.

Como é lindo menininhas trajando seus tules cor-de-rosa! É um tempo de inocência, de fantasias, de brincadeiras de roda e elástico, de papel de carta perfumado, de acreditar que o mundo é sim tão doce e tão lúdico quanto o castelo de nossos sonhos de princesas. Quando vestimos nossos tutus, não há crueldade ou desprezo, não há competição ou incoerência, não há ternos e calças, mas apenas vestidos rodados feitos para dançar conosco.

Crescemos. E à medida que crescemos, nos é extirpado o direito de vestir nossos tutus. Enquanto o mundo mostra sua verdadeira face, os terninhos ficam cada vez mais sombrios. Tornamo-nos mulheres belas por unhas bem feitas, peles bem cuidadas e perfumes na dose exata, mas nossos tutus permanecem jogados no fundo do armário à mercê do mofo e das traças, assim como nossos sonhos pequeninos.

Mas preciso. Preciso, vez ou outra, trajar todos os tutus e de todas as cores para que respirar possa fazer algum sentido. Retornar para o mundo lúdico que existe ao menos em meu coração. E por mais ridícula que possa parecer a imagem de uma mulher feita num tutu cor-de-rosa, que mal há?


Inspirado por: “O Lago dos Cisnes” – Tchaikovsky por The Mariinsky Theatre Orchestra

November 12, 2009

Sobre vilões e mocinhos


Nenhum ser humano é deliberadamente perverso a não ser que seja doente.

O mal que fazemos aos outros é fruto de nossa fraqueza. E pode ter certeza: você é capaz de afetar a vida de outrem muito mais do que possa imaginar. Mesmo sem a menor intenção de fazê-lo.

Sabe por que não gosto de novelas? As construções das personagens são sempre muito limitadas. Não sei se pela má formação dos atores ou pela linguagem simplista do meio, vilões e mocinhos nunca se apresentam de forma verossímil. Certa vez, conversava sobre isso com
minha terapeuta de boteco. Ela dizia que achava muito interessante que Renato Mendes fosse absolutamente mal, mal até escorrer sangue pelos dentes. E a Maria Clara Diniz que, de tão boazinha, chegava a ser sonsa. Meio pobre, não? Somos muito mais do que esses retratos folhetinescos.

Naquele dia, saindo da balada e com a certeza de que minha vida tinha sido pateticamente transportada para a um episódio de Sex and the City, ouvi, após duas cantadas baratas, do lado de fora da casa noturna, o presságio: “É... As pessoas são assim mesmo. Não se acostumou ainda?

Não. Esse não é meu mundo. E não aceito gratuitamente drops de auto-ajuda da Rede Globo School of Thought. No meu mundo, as pessoas são fracas; mas também são capazes de se desculpar mutuamente. No meu mundo, nossas escolhas não podem ser previstas em cálculos matemáticos; pois não há lugar para o senso comum. No meu mundo, o vazio existe; mas posso preenchê-lo com um sorriso e o coração aberto. É quando uma simples mensagem de texto pode fazer toda a diferença. É quando um ouvido atento e silencioso pode demonstrar mais do que mil palavras de conforto.

Nos quatro cantos do mundo, ouvimos que tudo está perdido, que possuimos uma natureza malévola. A idéia de que não há sentimentos nobres entre as pessoas é muito cruel. É um fardo muito pesado. E, se algum dia esta certeza for confirmada, mudo de mala e cuia para outra dimensão (pensei em dizer que cortaria os pulsos, mas achei Byroniano demais). Pois aí sim terei a certeza de esse não é meu mundo.

Por ora, apenas acredito que somos todos limitados e cheios de defeitos, mas ainda assim encantadores. Capazes de fazer mais ou menos cagadas na vida a depender de nossas próprias experiências. Mas fica o convite: quer ficar aí trancado dentro do muro que construiu ao seu redor resmungando que o mundo é mal; ou vai subir no palco da vida e coreografar sua dança, mesmo correndo o risco de cair? Fico com a segunda opção. No mínimo, meia dúzia de gatos pingados e malucos virá se juntar a mim para gargalharmos um monte.

November 11, 2009

Retratação


Estava eu aqui a ler o conteúdo do Dançar a Vida quando me deparei com coisas que escrevi que hoje já não fazem muito sentido. Já não detesto tanto as coisas assim. Passei a apreciar mais Pink Floyd e Led Zeppelin. Vivi mais amores do que supunha, embora eu acreditasse que meu coração estava adormecido. Já utilizo o twitter e – pasmem! – adoro.

É bom... é bom saber que nada é estável. E que a única coisa na qual fincamos raízes é nas alterações de nossa própria história. E que venham muitas outras mais. Embora seja um alívio o repouso da imutabilidade, como as semelhanças entre Seu Olímpio e vovô, meu amor por mamãe e pelos amigos de lá, de cá, os de ontem e os de hoje.

Vamos continuar?

November 03, 2009

Para minha mãe...


No post passado, falei que as mulheres são provedoras da vida. E hoje é aniversário daquela que me proveu a vida e o caráter. Da juventude roubada, das lágrimas nas apresentações de ballet, das aulas na rede pública para fazer uma festa de quinze anos, das noites mal dormidas pela agonia de bronquites que insistiam em não passar, por cada doce “não”, por cada esperado “sim”, mamis sempre foi uma batalhadora.

Dizem que somos muito parecidas. Fisicamente e psicologicamente. Fisicamente, concordo. Parece até que sou fruto de uma partenogênese. Psicologicamente? Duvido. O gênio pode até ser parecido, mas fico a anos luz quando o quesito é lutar. Rendo-me facilmente. Choro por nada. Minha mãe não. Ela vai e faz!

Tanto faz que agora enfrenta bravamente um câncer de mama que pegou todos de surpresa. Uma surpresa nada agradável, mas que tem se mostrado verdadeira discente na arte da vida e das escolhas.

Aniversários nos lembram que a vida é cíclica e que a mudança é a única coisa estável neste incompreensível Universo. Aniversários nos lembram que dores e amores são muito próximos. E por isso, transcrevo aqui um pedaço de um email que mandei pra ela...


Nunca serei uma grande bailarina e não deixarei um legado grandioso para o mundo (como fizeram os grandes cientistas, artistas e espiritualistas). Mas se há alguma coisa que eu possa fazer, isso é colocar em palavras minha pequena compreensão do mundo. Talvez isso amenize o sofrimento de poucos, mas ainda assim já é alguma coisa.

Somente diante da dor, é que tomamos consciência de nossa pequenez. O Universo é tão infinitamente imenso que nossa capacidade limitada não nos permite compreendê-lo. A única coisa que entendi é que ele funciona em ciclos contínuos. É como um jardim, no qual plantamos uma semente e dali nascem belas flores. As flores, tão logo cumprem seus propósitos (de enfeitar o olhar, atrair insetos ou dar frutos), murcham e morrem. Mas elas morrem para virar adubo e assim dar continuidade a este ciclo maluco e pulsante que é vida. A morte das flores dá vida a algo novo, algo fresco, algo lindo: um novo jardim. É uma inspiração, que tão logo cessa para morrer numa expiração e novamente se tornar inspiração. Assim é o curso natural das coisas. Um contínuo morrer e nascer daquilo que nos cerca.

O problema é que o ser humano é muito auto-centrado. Somos tão imensamente cartesianos, lógicos e racionais que perdemos a capacidade de compreender este ciclo natural das coisas. È sempre o "eu faço", "eu aponto", "eu sou foda", "eu decido minha vida", "meus valores". Tenho certeza de que nem as flores e nem a Marie têm tamanha convicção de posse e dominação. As flores e a Marie simplesmente fluem junto com o curso natural de suas vidas. E diante de tanta confiança em si mesmo, é que alguns "acidentes de percurso" acontecem. Ficamos doentes, damos a luz a filhos especiais, perdemos entes queridos antecipadamente, somos demitidos e um sem fim de acontecimentos corriqueiros todos os dias na vida de todo mundo.

O que precisamos aprender é não nos desesperar diante de tamanha ciclicidade que, às vezes, chega a ser cruel demais para nossa pequenez. O que precisamos aprender é que encarando fatalidades, nascerá dali uma nova vida, uma nova perspectiva, uma nova realidade muito melhor que a primeira, mas que depende exclusivamente do nosso "sim". O "sim, eu encaro". É o não fugir, mas permanecer firme bem no olho do furacão.

Isso não significa, é claro, que não cairemos em prantos. Como eu disse, somos frágeis e nos é permitido o desespero, a carência e a perturbação nos momentos mais difíceis. Mas é nessa hora que estaremos todos aqui pra te apoiar!

O amor que sinto por vc. é algo que não cabe dentro de mim! È tanto que, se eu pudesse, passaria por tudo isso em seu lugar. Só não repetirei essas palavras porque sei que tal coisa aumentaria sua dor, afinal é minha mãe.


Meu amor não cabe em palavras. Meu amor não cabe em blogs. Nem no meu coração, cabe meu amor. Por isso, mamãe, fica aqui o meu “muito obrigado” com a certeza de que sim, daremos conta. E como sempre digo, um dia, quando tivermos superado, olharemos para trás e não restará nada além de uma bela gargalhada.

Amo você!

October 29, 2009

Aqui jaz a guerra dos sexos



A guerra dos sexos é realmente algo que me esgota, sabe? Mas nunca tanto quanto ultimamente. Sempre as mesmas conclusões: eles querem só meter, mas se comportam como mulherzinhas; elas querem só casar, mas se comportam como machinhos. É realmente um quadro muito triste. Triste porque não há interesse em enxergar o outro como uma possibilidade real de conexão com a existência, com o universo, o cosmo, deus ou sei lá que outro nome você dá pra essa esfinge indecifrável que é a vida. É miojo sentimental, amor nos tempos do Messenger.

Minha postura neste blog é, na maioria das vezes, muito reservada. Mas terei de mostrá-la abertamente agora para explicar algumas conclusões. Depois que terminei meu primeiro relacionamento amoroso (que durou cerca de 5 anos e meio), caí num padrão que variava entre namoros carentes e cheios de requisitos e regras aos quais não era capaz de preencher ou respeitar e relacionamentos casuais que sempre aumentava o abismo da carência em meu coração. De ambos, sempre saí um ser humano pior e chegou o momento em que me via cada vez mais amarga e insegura. A ponto de vibrar com discursos feministas e generalistas, estilo Rede Globo School of Thought e do tipo “
homem é tudo palhaço”.

Foi quando descobri que o que não prestava era eu. Um emaranhado de rancor que esfumaçava a idéia e culminou em outro comportamento errado: o de preencher expectativas. Não bastava emagrecer dez quilos. Não bastava ser bailarina. Tinha que ser linda, gostosa, inteligente (mas não muito, pois eles se assustam), independente (o suficiente pra dividir a conta, mas não o bastante para ameaçar seu posto de macho alfa), sorridente, meiga, engraçada, imune à TPM e mais um sem fim de requisitos que – desculpem, rapazes – só a princesa encantada possui. Bom, contar um segredo pra vocês: princesas encantadas não existem, tal qual o príncipe, ok? E é esta mesma expectativa que faz
revista feminina vender como água no deserto, os piores blogs ter acessos estrondosos e livros de auto-ajuda entrar pra listas de best-sellers. Toda a informação necessária pra saber direitinho como se encaixar milimetricamente em um padrão perfeito.

Foi então que, recentemente, descobri que Thaís não era uma coisa e nem outra. Criei meu próprio elixir para sair dessa inércia da mulherzinha moderna. Uma receita que quero compartilhar com vocês, mas que – entendam – é somente aplicável a mim mesma. Isso aqui não é um compêndio de auto-ajuda, ok? O segredo era: 1) Estabelecer valores. 2) Apaixonar-me por algo. 3) Descobrir a força de minha natureza feminina.

Quando não há valor algum na vida, é como se estivéssemos cegos em meio a um tiroteio. Meus atos e pensamentos se alternavam com a onda dos acontecimentos e, óbvio, isso me fazia sofrer deveras. Ao estabelecer valores, distribuí-los indistintamente, por mais que pudesse correr o risco de parecer ridícula, e respeitá-los com lealdade; uma hora, eles seriam percebidos por quem me interessasse e não por quem tivesse um interesse explícito e imediato em me comer apenas. Estava cansada de um porra de um namorado manipulador. Estava cansada de questionar a filosofia da trepada no primeiro encontro. Estava cansada de ser uma nice girl que acreditava que podia agradar a todos. E isso só acontecia porque eu mesma não tinha qualquer valor ao qual seguir ou respeitar. Quando eles foram estabelecidos, todo o cansaço e todo o questionamento perderam o sentido e sublimaram no espaço. Acredite: tomar uma decisão se torna bem mais fácil.

Certa vez, li (não sei bem onde) que o que o torna interessante aos olhos de outrem é se apaixonar perdidamente por algo. No meu caso, sempre fui apaixonada por ballet clássico. Hoje, percebo que um dos meus erros na vida foi ter parado de dançar por tanto tempo. Foi como se minha própria natureza tivesse sido roubada de mim. Na dança, medito. Na dança, me equilibro. Na dança, descubro a melhor Thaís que há no mundo. Por isso, uma das decisões mais acertadas deste ano foi retomar as aulas de ballet. Um ambiente onde encontrei pessoas com as quais tenho afinidades infinitas. Pessoas que realmente fazem com que eu tenha uma identidade. Pessoas e momentos que fazem aborrecimentos mundanos também sublimarem no espaço. Sugiro fortemente uma paixão assim.

Descobri que o fato de simplesmente nascer mulher já me torna especial. Civilizações antigas habitavam o feminino. Na vida selvagem, em sua maioria, é a fêmea a guardiã do ninho, a mestre em ensinar a arte da sobrevivência para a prole. A ciclicidade da vida é sentida em nosso próprio corpo, quando curvas hormonais sobem e descem num frenesi fantasticamente ordenado para nos fazer menstruar, dar a luz ou ter uma cintura fina. Somos provedoras da vida e isso nos confere uma responsabilidade sem precedentes. Essa responsabilidade pode ser percebida da seguinte forma: é a mãe que coloca homens de caráter,
bundões ou mimados no mundo e é a mulher a responsável pelo darwinismo social restrito às relações amorosas.

Que atire a primeira pedra aquela que nunca reclamou que homem é tudo igual, preguiçoso, indeciso, comedor, canalha e mais um sem fim de adjetivos pejorativos. Um mimimi eterno com pouca ou nenhuma ação. Mas daí, eu pergunto: como você criou seu filho? Como você se comporta com seu marido/namorado? Todas (sem exceções, ok?) reclamam das mesmas coisas, mas são as primeiras a incentivar os comportamentos que não toleram.
Casam com um mané achando que dali surgirá um príncipe. E fazem isso por pura insegurança, por pura convenção social. São mulheres que perderam ou sequer tomaram conhecimento de sua própria natureza, que nunca estabeleceram valores e nem os espalharam indistintamente. Então, antes de reclamar que seu marido é um imprestável, ensine seu filho a não fazer xixi na rua, ok?

A idéia do darwinismo social é perigosa. Regimes facistas e nazistas a utilizaram de forma bem inconseqüente. Apesar disso, me agrada a idéia da seleção natural. No caso das relações amorosas, funcionaria assim: a mulher, responsável pela escolha do parceiro, somente procriaria daquele macho que apresentasse características sociais e psicológicas com algum valor pra humanidade. Considerando que virtuoso casal proveria uma educação adequada, plim! Mágica feita: seria a extinção de mulheres histéricas e homens imbecis no mundo.

Achou a idéia esdrúxula? Bem... A intervenção da ciência na seleção natural é mais do que conhecida. Nossas descobertas aumentaram a sobrevida de muitos doentes que, a priori, não sobreviveriam, mantendo fenótipos à solta e que seguem transferindo genes para a geração seguinte. Então, é perfeitamente possível que possamos fazer uma intervenção sociológica na coisa toda. A inspiração pra isso veio de um conselho certeiro quando eu questionava meu desejo de ser mãe. “O que seria do mundo se pessoas bacanas, de caráter e conscientes de suas ações não procriassem? Seríamos o resultado do pior que a espécie humana pode oferecer”.

Talvez minhas tataranetas possam ver o resultado da minha hipótese. Por ora, devo concordar que a idéia é esdrúxula mesmo. Mas só é esdrúxula quando nos damos conta de que há um enorme abismo entre a teoria e a prática. Mulheres continuarão escolhendo parceiros imbecis, continuarão validando comportamentos que abominam, continuarão preocupadas em casar e ter filhos para evitar uma velhice solitária, continuarão mimando seus filhos para torná-los tão imprestáveis quanto seus maridos. Nossa responsabilidade é muito maior do que aquela que conseguimos enxergar. Lembrem-se sempre: somos provedoras da vida. E enquanto seres conscientes e pensantes, ganhamos também a responsabilidade de prover o caráter. E não é preciso necessariamente ter carregado uma criatura no ventre para fazê-lo. Amigas, tias, primas, irmãs, todas temos a responsabilidade do puxão de orelha certeiro.

E antes que alguém vomite que todo este discurso é feminista (não, ele não é!), quero apresentar uma opinião masculina a respeito. Certa vez, perguntei ao
Gustavo Gitti, como podemos chamar o homem que existe dentro de nossos parceiros. Como podemos contribuir para que nossos namorados, amigos, primos, filhos possam fazer surgir dentro de si o tal macho novo. A resposta? Vejam:

Thaís, algumas chaves para isso:

Não aceite mediocridade. Se no dia dos namorados, ele não chamar você para algo decente; se o sexo for médio; se ele não estiver conduzindo a vida dele para algo digno, corte relação, reclame, xingue, grite, deixe claro que ele é um merda.

Não engula sapo. Se ele fizer merda, reclame. Mostre onde ele faz cagada, expresse seus sentimentos, surte, bata o pé, faça birra e manha.

• Se ele acertar, se entregue totalmente, vire menina, um doce, rendida, na mão dele. Diga que você é dele e que ele pode fazer o que quiser com você. Isso ativa a nossa condução, ativa o que há de mais masculino em nós.

• Seja dele. Confie nele, deixe que ele conduza você. Seja ousada, não tenha restrição alguma. Dificulte apenas pelo prazer de jogar, não mantenha áreas intocadas, evite rigidez (“Isso não pode, isso eu não faço”). ;-) Deixe que ele invada você completamente e silenciosamente peça por isso.

A abordagem do Gustavo, em seu blog, é sobre relacionamentos lúcidos. Entretanto, considero estas quatro chaves como resposta para qualquer outro relacionamento entre pessoas de ambos os sexos: pai-filha, irmão-irmã, chefe-subordinada, amigo-amiga. Apenas utilize o bom senso e tome cuidado para considerar as devidas limitações, ok? Não mandei ninguém se insinuar pro chefe aqui, mas você sabe perfeitamente como deixar claro que ele é um merda.

Ok. Isso não significa que homens também não tenham sua porção de responsabilidade. Só não desejo falar por eles. Homens e mulheres são diferentes sim. Lutemos apenas pela igualdade civil entre os sexos, pois lutar por qualquer outro tipo de igualdade entre ambos é um grito no vácuo. E viva as diferenças, pois elas se complementam.

Meus três segredos podem ser resumidos em uma só palavra: conexão. Nossa cultura cartesiana trouxe a tristeza e o exílio, pois separou o homem de sua conexão com a existência, com sua própria obra. Essa separação culminou no surgimento das ciências da mente e na busca pelo entendimento da alma. Nunca fomos tão perseguidos por medos e angústias. Não era assim antes. Essa diferença é o que faz da Grande Muralha um monumento e não uma mera obra de engenharia. Então é preciso restabelecer a conexão com nossa própria existência. Daí, é quando percebemos que ela não necessariamente precisa acontecer com um parceiro, mas com amigas ou com um cachorro.

É essa força motriz da conexão que não nos deixa aceitar mediocridade ou engolir sapos. Nem de homens e nem da vida. É essa força motriz da conexão que faz com que criemos valores próprios, nos apaixonemos por algo e sigamos nossa intuição feminina. O passo final é somente acreditar com afinco em tudo isso. Então, pouca diferença faz se aquele nerd do cursinho de inglês não te deu bola ou se seu marido fica arrotando no sofá, pois é perfeitamente possível viver conectada e feliz, estando casada ou sozinha. Em 2047, inauguraremos a Casa de Repouso das Velhinhas Rock’n’Roll, pois todas elas descobrirão que o importante na vida não é casar, mas dançar. Dançar sempre.




Most of women’s depressions, ennuis, and wandering confusions are caused by a severely restricted soul-life in which innovation, impulse, and creation are restricted or forbidden. Women receive enormous impulse to act from the creative force. We cannot overlook the fact that there is still much thieving and hamstringing of women’s talents through cultural restriction and punishment of her natural and wildish instincts.
We can break away from this condition if there is an underground riven or even a little freshet pouring from somewhere soulful into our lives. But if a woman “far from home” surrenders all power, she will become frist a fog, then a vapor, and finally a wisp of her former wildish self.

Clarissa Pinkola Estés
"Women who run with wolves"