Alguém aqui já teve a sensação de que simplesmente é impossível ser compreendido? Do trabalho à blogagem, dos amigos aos romances, isso sempre me pareceu de uma constância infinita.Retomemos nossas lições de Língua Portuguesa na escola. Alguém se lembra quais são os elementos da comunicação? O quadro abaixo ajuda bastante.
Agora responda: qual dos elementos acima falha na hora de nos fazermos entender? Obviamente não é o canal. Já inventamos centenas de meios de comunicação possíveis. Dos hieróglifos pré-históricos à internet, uns com mais outros com menos eficiência, nossa mensagem sempre foi transmitida. Diria que tampouco o problema é com o código ou o referente. Embora o desejo de voltar ao tempo das cavernas seja evidente quando coisas como o miguxês são criadas. Ou simplesmente há quem assassine a língua assim mesmo, sem dó nem piedade. O conteúdo talvez seja um problema, pois organizar ideias em numa cadeia de raciocínio não é tarefa das mais fáceis. Ainda assim, não acredito que somos tão tapados a ponto de não saber o que se passa dentro de nós e traduzir tudo isso em palavras.
Mas então onde está o problema? Óbvio que está nos dois elementos humanos do quadro: o emissor e o receptor. O enrosco começa porque nem um nem outro sabe bem ao certo seu papel. Vivemos numa época em que os diálogos já não fazem o menor sentido. Basta abrir qualquer histórico do MSN e serão poucos os conteúdos realmente plausíveis. Basta prestar atenção na conversa do casal ao lado no restaurante. Entre amigas, o exemplo é mais fácil:
- Nossa, menina, você nem imagina o problema que tenho pra lavar meu cabelo de manhã cedo. Se eu lavo e não seco, dá 6 horas da tarde e ele ainda está úmido aqui na minha nuca.
- Ah, mas sabe o que eu faço? Cauterização com queratina. É ótimo, menina! Aquilo fecha as cutículas dos fios e o cabelo passa a secar mais rápido quando ao natural.
- Então... eu tentei o último grito em tecnologia das escovas, mas não deu certo. Meu cabelo minguou.
- Ah, mas comigo é diferente. Sabe a cauterização?
(continua ad aeternum)
- Ah, mas sabe o que eu faço? Cauterização com queratina. É ótimo, menina! Aquilo fecha as cutículas dos fios e o cabelo passa a secar mais rápido quando ao natural.
- Então... eu tentei o último grito em tecnologia das escovas, mas não deu certo. Meu cabelo minguou.
- Ah, mas comigo é diferente. Sabe a cauterização?
(continua ad aeternum)
Isso é o que chamo de Síndrome do Maizeu. Observe: qualquer diálogo que presenciar ou participar, sempre há o “mas eu”, demonstrando claramente que ninguém está de fato interessado na mensagem do outro.
A linguagem é SEMPRE tendenciosa à esquerda do quadro com o discurso SEMPRE centrado no eu, no emissor. A quantidade de pronomes em primeira pessoa é absurda em ambos os lados, numa demonstração clara de que o receptor não compreende a mensagem ele mesmo não está interessado nela, mas sim em se tornar o próprio emissor.
Essa vontade de sermos o emissor sempre, de falar do eu sempre, de ser o centro das atenções a todo custo (hello, twitter!) nada mais é do que o reflexo de nossa incompetência. Somos auto-centrados, mimados e isso também nos torna surdos e incapazes. Por isso digo: não adianta inventármos outros mil canais de comunicação. Não adianta achar que o último gadget da Apple é a maçã mais suculenta da cesta. E-mails, chats e redes sociais já se encarregam de transferir o conteúdo da mensagem em tempo real, não importa a distância entre emissor e receptor. O necessário é bem mais simples: basta parar de olhar para seu próprio umbigo. O mundo não é sua barriga gorda!
"Quem não se comunica se estrumbica", já dizia o sábio Chacrinha. Mal sabia ele, coitado, que o problema todo é bem mais embaixo. O ruído é alto, a quantidade de lixo produzido (não pense que este blog é diferente) é infinita... e ainda assim continuamos sem entender uns aos outros. Triste isso.
Mas há conserto. Olhar para além de si próprio. Enxergar a vida pela perspectiva da realidade de outrem. Exercitar a empatia. Já seria um belo começo. Quer fazer este exercício? Então responda: no Twitter, você mais ouve ou mais grita?
9 comments:
Eu adoro os seus posts...
inclusive estava pensando sobre esse assunto e conversei com a minha irmã. É incrivel a falta de capacidade das pessoas (principalmente mulheres) em ouvir. Tudo se conjuga na primeira pessoa do singular e os diálogos estão cada vez mais engraçados e tristes!
Bjs da sua fã de Curitiba =)
Mariana
É tipo isso, Mariana. Vc pegou bem o espírito da coisa... rs
Dia desses, vi algo bem parecido com o diálogo que você narrou. Eu queria lembrar onde vi (Rubem Alves talvez), porque era bem engraçado (e pertinente). Algo como:
- Mês passado, eu tive um problema enorme com cupins.
- Ah, mas isso não é nada; semana passada, minha geladeira pifou e tudo estragou.
- Sinto muito. Mas a minha situação é ainda pior: os cupins atacaram os antiqüíssimos móveis de família.
- Que pena. Mas isso não é nada...
Creio que é falta da prática da escuta. Muito do ruído vem da nossa própria cabeça. Daí, acontecem essas situações surreais.
Alguma em partiular que lhe inspirou a escrever, além do diálogo das mocinhas?
Hahaha! Ótimo comentário!
O próprio diálogo das mocinhas talvez tenha me inspirado. Bem... eu era uma delas. :o) Mas fato é que já venho pensando no assunto há muito tempo. Sempre paro pra observar, fazendo parte do diálogo ou não.
E concordo muito com vc quando diz que isso ocorre por falta de prática na escuta. Faz muito sentido!
Beijão!
PS: Não consegui descobrir seu nome... Mas o nome do blog é de uma sacada genial!
ótimo texto!
Bastante clara a tua comunicação.
Obrigada, Márcio! A gente tenta... :o)
Hehehe, obrigado.
Você já leu/assistiu a Salomé do Wilde, ou à respectiva ópera que o Strauss escreveu? Nessa peça, fica bem claro como os personagens estão presos dentro de si mesmos. É atordoante.
Nunca assisti nem li. Mas considerando vc um rapaz de muito gosto, assistirei/lerei com certeza! :o)
Tais, perfeito!!!!!Lucidez e linguagem fluente, muito bom seu texto.O dr. Freud entende bem desse negócio de ego eterno, só que a solução exige overdose de coragem , daí o problema, o consumismo acovardou a raça humana, jogou a solução para a mecânica ação de comprar.
Ninguém internaliza nada, então "a vaca vai pro brejo"não há o que ser feito com um quadro social caótico, raso e pequeno como o que vemos aí. Também escrevo se quizer dar uma passadinha lá: praquemgostadepensar.blogspot.com.
Virei aqui mais vezes, gostei muito!!!
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