April 30, 2010

Desafio Literário: Estrela Distante


Estado: instituição organizada politicamente, socialmente e juridicamente, ocupando um território definido, normalmente onde a lei máxima é uma Constituição escrita, e dirigida por um governo que possui soberania reconhecida tanto interna como externamente. Um Estado soberano é sintetizado pela máxima "Um governo, um povo, um território". O Estado é responsável pela organização e pelo controle social, pois detém, segundo Max Weber, o monopólio legítimo do uso da força (coerção, especialmente a legal).



Estudiosos de Direito sempre reforçam que o objetivo final do Estado é o bem comum com Constituições primando pelas garantias e direitos individuais. O engraçado é que, na prática, a coisa não funciona bem assim. Quem aqui se sente verdadeiramente livre quando nossos CPFs vão parar nas listas dos devedores? Quem aqui se sente verdadeiramente livre quando cada corredor que se percorre possui uma câmera apontada para si? Ser cidadão implica em tantas obrigações e condescendências que questiono a tal liberdade garantida pela Constituição. A mim, sempre me pareceu um discurso bastante controverso.

Em períodos de ditadura, toda a utopia do Direto cai por terra, uma vez que o Estado começa a interferir diretamente nos menores detalhes da vida de um cidadão. E é sobre isso que Roberto Bolaño conta em “Estrela Distante”.


No último capítulo de meu romance La literatura nazi en América, narrava-se de modo talvez esquemático demais (não passavam de vinte páginas) a história do tenente Ramírez Hoffman, da FACH. Essa história me foi contada pelo meu compatriota Arturo B, veterano das guerras floridas e danditado a suicida na África, que não ficou satisfeito com o resultado final. O último capítulo da Literatura nazi servia de contraponto, ou talvez como anticlímaz, para todo o conteúdo literário grotesco que o precedia, e Arturo queria uma história mais longa, não como um reflexo ou um resultado da explosão de outras histórias, e sim como reflexo e explosão em si mesma. Portanto, isolamo-nos durante um mês e meio em minha casa de Blanes e, a partir do último capítulo, ao embalo de seus sonhos e pesadelos, compusemoso romanceque o leitor tem em mãos agora. Minha função limitou-se a preparar bebidas, consultar alguns livros e discutir, com ele e com o fantasma cada vez mais vivo de Pierre Menard, a pertinência da repetição de vários parágrafos.

É assim que Bolaño convida seu leitor a conhecer um grupo de amigos que freqüentavam oficinas de poesia da Universidade de Concepción, no Chile de 1972. No período, Salvador Allende ainda era presidente e, em seguida, seria deposto com o golpe militar de Pinochet. A história é narrada por um poeta iniciante que insere detalhes da vida dos amigos Bibiano O’Ryan, as gêmeas Garmendia, Gorda Posadas, Juan Stein, Diego Soto e Alberto Ruiz-Tagle/Carlos Wieder. Todos jovens e cujos sonhos poéticos foram-lhe arrancados pelo punho da ditadura.


Poucos dias depois, veio o golpe e , com ele, a debandada

Em pouco mais de duas décadas, o leitor se depara com pistas duvidosas sobre o paradeiro dos jovens, desaparecimentos, homicídios, trocas de identidades, destinos trágicos e a dor que a repressão pode causar a um único individuo e sua história. Tudo pelo simples fato de pertencerem a um grupo literário.

Em nenhum momento da narrativa, é dada a certeza dos fatos ao leitor. Os acontecimentos beiram tanto o absurdo que chegamos a duvidar de sua veracidade, até porque provas concretas nunca houve. É curioso inclusive o fato da própria história do narrador não apresentar grandes detalhes. É como se sua própria vida tivesse sido apagada pelo fantasma da repressão. Mas há quem diga que o narrador é mesmo o próprio Bolaño.

Bolaño tem uma capacidade extraordinária de criar uma linha tênue entre o real e o fictício. "Estrela Distante" também é uma excelente fonte de referências de qualquer tipo: de Bergman a filologia da língua alemã, de Neruda ao detalhe das fotografias expostas nas casas das personagens. Impressão que se tem é que só à própria sede de conhecimento é dada a benção do refúgio da dor. Pois já que o Estado não nos deixa ser completamente livres, temos pelo menos um mundo vasto de referências e aprendizados para até o fim de nossos dias.


Título: Estrela Distante
Título original: Estrella Distante [1996]
Autor: Roberto Bolaño
Tradução: Bernardo Ajzenberg
ISBN: 978-85-359-1562-4
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2009
Páginas: 143

3 comments:

naomi said...

este livro tem tudo a ver com o que escolhi! portanto, entrou na lista dos que eu tenho que ler... ainda mais depois de uma análise dessa. :o) excelente!

Thaís said...

Olá, Naomi!

Li sua resenha e percebi mesmo que escolhemos livros bem semelhantes. O que não é difícil, né? rs
Pra falar a verdade, achei minha análise bem porca. Nada comparada às suas. Mas prometo me esforçar mais.

Um abração!

Vivi said...

Também gostaria de lê-lo. A julgar por sua análise, muito bem feita por sinal, deve ser uma leitura instigante e reflexiva. Obrigada pela brilhante participação.


Bjs