
Se há uma coisa que nós – humanos, limitados (né, Flávia?) – sabemos muito bem é tentar fazer nossa vida imitar a arte. Fantasiamos o tempo todo em encontrar os mocinhos e as mocinhas dos livros, filmes e blogs. Pra tão logo perceber que os mocinhos e as mocinhas dos livros, filmes e blogs só são assim tão interessantes porque não fazem parte da vida real.
Em determinada parte de “Humano, demasiado humano” (não me lembro exatamente onde), Nietzsche explica que os artistas e poetas são os maiores e os melhores mentirosos da espécie. Todos eles descrevem com propriedade o idílio do amor, como se esta fosse nossa morada última de paz e felicidade. E prova maior disso é a própria cultura pop. Do que falam as músicas? Do que falam os livros? Do que falam os filmes? Amor, amor, amor! Do iPod à tela do cinema, do Kindle aos blogs, tudo pinga mel. “Did I listen to music because I was miserable? Or was I miserable because I listened to music?”
Quando ouvi, pela primeira vez, a voz doce e levemente rouca de Otis Redding entonar “Oh, she may be weary...”, estava no cinema e lembro de sentir o arrepio subir coluna acima. Passei semanas, meses ouvindo essa pequena obra-prima apaixonada de trompetes que choram e, a cada vez, me questionava: “Será que amor assim existe mesmo? Será que o que ele canta é genuíno?”. Era uma época em que começava a me interessar pela soul music; não conhecia muita coisa, mas já sabia que não haveria melhor gênero para falar de amor. Lógico: uma música de alma não poderia ser diferente.
Foi então que aprendi que a fábrica de sonhos da Motown usou o próprio amor como chavão pra conquistar a classe média branca norte-americana nos anos 60. Não se podia falar de outra coisa senão de amor, ou melhor, de um amor lúdico, inocente, puro. Qualquer outro tema era explicitamente proibido pelo (gênio?) Berry Gordy. A fórmula deu tão certo que os Funk Brothers, a banda de apoio das estrelas da Motown, acumulam mais singles no topo das paradas de sucesso do que Beatles, Beach Boys, Rolling Stones e Elvis Presley juntos! E foi assim, garimpando as pérolas da soul music, que cheguei à conclusão de que é a vida mesmo que imita a arte. Os artistas e poetas mentem. Nós, meros mortais, caímos como patinhos e, patéticos, tentamos fazer igual. Nietzsche já tinha me explicado e, teimosa que sou, não acreditei.
Tal descoberta foi bastante dolorosa, pois sempre me considerei uma romântica incurável, daquelas bobas mesmo, sabe? Mas ainda assim, gosto mais quando a música, o filme, o livro falam do verossímil. Paixões arrebatadoras, badaladas de sinos... nada disso me seduz. Gosto de amor lúcido. Gosto do que é real e factível. Amor que não enfeitiça, mas causa admiração. Amor que não vicia, mas que é alimento pra alma. Amor que não parasita, mas que cresce junto em simbiose. Sabe aquela sorte de um amor tranqüilo que o Cazuza cantou? É isso! Um amor lovebird, pois entre pombinhos há sempre um acordo de lealdade bastante explícito.
E amor assim nunca nasce do arrebatamento. Paixões arrasadoras estão fadadas ao fracasso. Sheakspeare escreveu Romeu e Julieta pra nos mostrar isso. O amor de John e Yoko só sobrevive porque ele morreu. Pois cedo ou tarde, o falso altruísmo da paixão cobra com juros. É por isso que contos de fada não têm segunda parte. A promessa do happily ever after é o atalho mais curto pra acabar com o sentimento. Paixão virar amor? Puff! Maior mentira que já contaram a você.
Agora... O contrário talvez seja perfeitamente possível. Duas almas tranqüilas que um dia se encontram e tudo funciona. Não houve explosão, não houve extremos, talvez uma antipatia inicial até, mas que foi amigavelmente solucionada. Quando se deram conta, já estavam – aí sim! – apaixonados. Foi então exarado o compromisso lovebird. Carpinejar já explicou isso quando disse que “é a insistência que produz amor, e não o deslumbramento”.
Foi quando percebi que nem tudo estava perdido. A arte também imita a vida. E quando o faz é com maestria. Meus melhores filmes, meus álbuns prediletos sempre falam da amarga existência humana e como o amor nasce dali. Exemplos? Zelig e Dra Fletcher. O paciente que sofre de lizardia e que é curado não pela doutora, mas pela mulher interpretada por Mia Ferrow. Boris e Melody. Casal mais que improvável pela diferença exorbitante de idade e de QI, mas que proporcionam um ao outro uma vida com pouco mais de sentido e graça. Ah, Woody Allen é difícil pra você? Pense em Marshal e Lilly, o casal fofo da série How I Met Your Mother ou em Elizabeth e Darcy, de Orgulho e Preconceito. Nenhum deles iniciaram seus relacionamentos baseados em palpitação e sudorese apaixonada. E assim como na ficção, sempre temos aquele casal de amigos que chamamos de “pra sempre”. E pode observar: a história deles começou com banalidade e tédio. Do contrário, nossa vida também está cheia de exemplos. Quem nunca presenciou uma briga homérica de casal amigo em bar, balada ou restaurante? Aposto que durou bem pouco...
A arte imitar a vida? A vida imitar a arte? Bem... É você quem faz a escolha. Eu fico com a primeira e quero continuar acreditando nos Stones quando cantaram: "you can't always get what you want / but if you try sometimes well you just might find / you get what you need". Porque, né? A felicidade é bem mais medíocre do que fantasiamos e o “essencial é invisível aos olhos”.
Em determinada parte de “Humano, demasiado humano” (não me lembro exatamente onde), Nietzsche explica que os artistas e poetas são os maiores e os melhores mentirosos da espécie. Todos eles descrevem com propriedade o idílio do amor, como se esta fosse nossa morada última de paz e felicidade. E prova maior disso é a própria cultura pop. Do que falam as músicas? Do que falam os livros? Do que falam os filmes? Amor, amor, amor! Do iPod à tela do cinema, do Kindle aos blogs, tudo pinga mel. “Did I listen to music because I was miserable? Or was I miserable because I listened to music?”
Quando ouvi, pela primeira vez, a voz doce e levemente rouca de Otis Redding entonar “Oh, she may be weary...”, estava no cinema e lembro de sentir o arrepio subir coluna acima. Passei semanas, meses ouvindo essa pequena obra-prima apaixonada de trompetes que choram e, a cada vez, me questionava: “Será que amor assim existe mesmo? Será que o que ele canta é genuíno?”. Era uma época em que começava a me interessar pela soul music; não conhecia muita coisa, mas já sabia que não haveria melhor gênero para falar de amor. Lógico: uma música de alma não poderia ser diferente.
Foi então que aprendi que a fábrica de sonhos da Motown usou o próprio amor como chavão pra conquistar a classe média branca norte-americana nos anos 60. Não se podia falar de outra coisa senão de amor, ou melhor, de um amor lúdico, inocente, puro. Qualquer outro tema era explicitamente proibido pelo (gênio?) Berry Gordy. A fórmula deu tão certo que os Funk Brothers, a banda de apoio das estrelas da Motown, acumulam mais singles no topo das paradas de sucesso do que Beatles, Beach Boys, Rolling Stones e Elvis Presley juntos! E foi assim, garimpando as pérolas da soul music, que cheguei à conclusão de que é a vida mesmo que imita a arte. Os artistas e poetas mentem. Nós, meros mortais, caímos como patinhos e, patéticos, tentamos fazer igual. Nietzsche já tinha me explicado e, teimosa que sou, não acreditei.
Tal descoberta foi bastante dolorosa, pois sempre me considerei uma romântica incurável, daquelas bobas mesmo, sabe? Mas ainda assim, gosto mais quando a música, o filme, o livro falam do verossímil. Paixões arrebatadoras, badaladas de sinos... nada disso me seduz. Gosto de amor lúcido. Gosto do que é real e factível. Amor que não enfeitiça, mas causa admiração. Amor que não vicia, mas que é alimento pra alma. Amor que não parasita, mas que cresce junto em simbiose. Sabe aquela sorte de um amor tranqüilo que o Cazuza cantou? É isso! Um amor lovebird, pois entre pombinhos há sempre um acordo de lealdade bastante explícito.
E amor assim nunca nasce do arrebatamento. Paixões arrasadoras estão fadadas ao fracasso. Sheakspeare escreveu Romeu e Julieta pra nos mostrar isso. O amor de John e Yoko só sobrevive porque ele morreu. Pois cedo ou tarde, o falso altruísmo da paixão cobra com juros. É por isso que contos de fada não têm segunda parte. A promessa do happily ever after é o atalho mais curto pra acabar com o sentimento. Paixão virar amor? Puff! Maior mentira que já contaram a você.
Agora... O contrário talvez seja perfeitamente possível. Duas almas tranqüilas que um dia se encontram e tudo funciona. Não houve explosão, não houve extremos, talvez uma antipatia inicial até, mas que foi amigavelmente solucionada. Quando se deram conta, já estavam – aí sim! – apaixonados. Foi então exarado o compromisso lovebird. Carpinejar já explicou isso quando disse que “é a insistência que produz amor, e não o deslumbramento”.
Foi quando percebi que nem tudo estava perdido. A arte também imita a vida. E quando o faz é com maestria. Meus melhores filmes, meus álbuns prediletos sempre falam da amarga existência humana e como o amor nasce dali. Exemplos? Zelig e Dra Fletcher. O paciente que sofre de lizardia e que é curado não pela doutora, mas pela mulher interpretada por Mia Ferrow. Boris e Melody. Casal mais que improvável pela diferença exorbitante de idade e de QI, mas que proporcionam um ao outro uma vida com pouco mais de sentido e graça. Ah, Woody Allen é difícil pra você? Pense em Marshal e Lilly, o casal fofo da série How I Met Your Mother ou em Elizabeth e Darcy, de Orgulho e Preconceito. Nenhum deles iniciaram seus relacionamentos baseados em palpitação e sudorese apaixonada. E assim como na ficção, sempre temos aquele casal de amigos que chamamos de “pra sempre”. E pode observar: a história deles começou com banalidade e tédio. Do contrário, nossa vida também está cheia de exemplos. Quem nunca presenciou uma briga homérica de casal amigo em bar, balada ou restaurante? Aposto que durou bem pouco...
A arte imitar a vida? A vida imitar a arte? Bem... É você quem faz a escolha. Eu fico com a primeira e quero continuar acreditando nos Stones quando cantaram: "you can't always get what you want / but if you try sometimes well you just might find / you get what you need". Porque, né? A felicidade é bem mais medíocre do que fantasiamos e o “essencial é invisível aos olhos”.
3 comments:
Que belíssimo texto, hein? Acabei de virar seu fã. Me ganhou pelas palavras.
Cláudio Henrique - jornalista/BH
Obrigada, Cláudio!
Comentários como o seu me deixam tão feliz, ainda mais de um jornalista! rs Volte sempre, ok?
Um abraço!
Concordo com cada linha do último parágrafo, flor. Aliás, por coincidência, postei agora no meu blog uma frase do Guimarães Rosa exatamente sobre isso.
(estava devendo deixar meus comentários aqui no blog. Sei bem como é gostoso ter feedback do que a gente escreve, dá um sentindo a mais ao nosso caso de amor com as palavras!)
:*
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